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Desafios e perspectivas para a indústria têxtil no Brasil este ano

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O Brasil é o quinto no ranking dos principais produtores têxteis e o quarto maior mercado no segmento de vestuário em todo o mundo. Ainda assim, o país tem pouco destaque no comércio internacional e importa quase seis vezes mais do que exporta, principalmente, porque muito do que é produzido aqui é absorvido internamente. Para ilustrar, as importações somam algo em torno de 5,5 bilhões de dólares, ao passo que as exportações não ultrapassam 860 milhões de dólares.

Mesmo diante destes números, a indústria brasileira não figura na lista das 15 maiores importadoras de produtos têxteis. Países desenvolvidos como Estados Unidos, Alemanha, Japão, Reino Unido e França são os maiores consumidores de peças prontas, enquanto nações em desenvolvimento respondem pela maior parte das negociações de materiais que serão manufaturados, caso da China e Vietnã, por exemplo. Em relação às exportações, os chineses lideram isoladamente em vestuário, seguidos por Bangladesh, Vietnã, Itália e Alemanha. Já em produtos têxteis, os maiores exportadores são Índia, Estados Unidos, Alemanha, China, Itália e Turquia.

Apesar de a produção têxtil no Brasil estar presente em todas as regiões do país, há maior concentração nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Ceará, onde atuam metade das empresas do setor e cerca de 60% de toda a mão de obra. São pelo menos 60 mil empresas de fabricação de produtos têxteis e 338 mil confecções de artigos de vestuário e acessórios. Não à toa, o setor é o segundo maior empregador da indústria de transformação, com cerca de 1,5 milhão de trabalhadores, e o que mais garante oportunidades, em quantidade, para profissionais do sexo feminino.

Segundo a entidade que representa a indústria têxtil nacional, as expectativas para este ano são de provável desaceleração. Isso deve refletir tanto na produção quanto nas vendas do setor, que vai continuar operando abaixo dos níveis de antes da pandemia e encerrar 2022 com crescimento médio de 1% em relação ao período anterior. O aumento na conta de energia elétrica, a dificuldade em contratar mão de obra especializada, a desvalorização do câmbio e a competição acirrada com os mercados asiáticos são questões sensíveis que impactam diretamente essa indústria. A principal matéria-prima, o algodão, tem sido preferencialmente vendida para mercados no exterior ao invés de abastecer o mercado local, o que provoca o aumento dos custos.

Além disso, como em diversos outros setores, a inflação e o aumento da taxa de juros podem limitar a plena retomada das atividades, uma vez que comprometem a renda da população e a capacidade de consumo no curto e médio prazo. Nesse sentido, há um desafio estruturante no setor e os empresários cada vez mais necessitam discutir e encarar a cadeia de negócio como um todo, de forma a colaborar e pensar em inovação para que possam enxergar melhores perspectivas de futuro.

A pandemia provocou ainda transformações significativas no perfil das vendas, exigindo investimentos em digitalização dos processos e melhorias nas lojas e shoppings virtuais (marketplaces). Com o retorno das atividades presenciais, a tendência é que os espaços físicos incorporem tais conceitos e continuem oferecendo praticidade e autonomia aos clientes. Estes, inclusive, acompanharam as mudanças e agora estão mais conscientes e atentos, por exemplo, à origem dos produtos e às condições da mão de obra utilizada.

A preocupação com os princípios da agenda ESG, sigla em inglês para práticas ambientais, sociais e de governança, também assume protagonismo no setor, principalmente, na busca por alternativas mais ecológicas de fabricação, como a redução no uso de água para a produção de calças jeans ou a utilização de resíduos têxteis e de outros materiais recicláveis para criar novos produtos. Para tanto, investimentos em maquinário e automação, capazes de ampliar e garantir a relevância do parque industrial brasileiro, tornam-se cada vez mais imprescindíveis. O cenário para este segundo semestre será desafiador e apenas quem estiver atento a tais questões seguirá competitivo num mundo pós-pandemia.

Por Aldo Macri – sócio-líder do segmento de bens de consumo da KPMG.

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